Pensar a Saúde

Pensamentos sobre… saúde, enfermagem, et al.


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AR SRSul – Dia do Pai

dia do pai

Ontem foi a Assembleia Regional Sul da SRSul.

A participação escassa (cerca de 50 enfermeiros em que 50% eram dos atuais órgãos), eu o único dos 5 candidatos à secção vencidos, faz prever que, apesar do referido balão de oxigénio supostamente trazido pelos atuais órgãos, nada mudará para melhor nestes momentos de afirmação/discussão interna da profissão.
Recordo que há 4 anos, na primeira assembleia do anterior mandato, estiveram na sala cerca de 100 pessoas.

Mas porque é nestes momentos e locais que devemos falar e dizer o que sentimos deve ser ouvido, tive uma intervenção inicial que aqui partilho:

“Na SRSul os Enfermeiros são:
– 55%  da região de Lisboa
– 18% de homens
– Grande maioria (enfermeiros e enfermeiras) em idade fértil

Com estes números na cabeça gostaria de fazer duas sugestões ao presidente da mesa e presidente do CDRSul.
– Não obstante de achar importantíssima a descentralização das atividades da ordem, como foi exemplo o mandato anterior em que inúmeras atividades foram realizadas fora do distrito de Lisboa, e de congratular a escolha de Évora para a realização da assembleia… 55% dos enfermeiros da secção são de Lisboa… é um facto!
Sugeria então que em assembleias e atividades futuras, pudesse ser pensado e organizado um transporte para os enfermeiros fora do distrito, também à imagem do que foi feito no passado nesta secção.

– 18% de homens, maioria dos enfermeiros (e enfermeiras) em idade fértil…
No meu ver atravessamos hoje em Portugal um momento social delicado em que o enfermeiro deverá ser promotor de alguns valores importantes, como é o valor da família. O Enfermeiro de Família, que espero continue a ser uma das bandeiras da nossa profissão, é o exemplo disso mesmo.
Hoje é o dia do Pai. (Parabéns a todos os pais na sala!)
Assim solicitava ao presidente da mesa que em próximas assembleias tivesse especial atenção a estas datas, pois certamente que houve enfermeiros/pais e enfermeiros/filhos que prescindiram de vir a esta assembleia para estarem com os seus filhos e não os podemos censurar por isso.”

De referir que todos os documentos apresentados foram aprovados exceto o relatório e contas de 2015 que foi retirado o ponto pelo presidente da mesa.


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Eutanásia – Bastonária dos Enfermeiros

ComploPorque quando se assume um cargo institucional temos de ter a capacidade de perceber que não nos representamos apenas a nós mas a toda a classe, deveremos ter o cuidado do que dizemos pois isso vincula todos e não só o próprio.

Em defesa da honra como Enfermeiro da prática:
Em dez anos de exercício profissional numa Urgência Polivalente, onde chegam diariamente cidadãos em estadio terminal, sob cuidados paliativos ou com problemas que podem ser inseridos na atual discussão sobre a eutanásia, em momento nenhum vi alguém (qualquer que fosse a classe profissional) ou participei em qualquer medida como as referidas pela Bastonária dos Enfermeiros. Acrescento que muitas vezes argumentei contra atos de distanasia que é bem diferente do que foi dito. Recordo ainda que qualquer enfermeiro que tenha participado/observado algum deste atos está obrigado pelo seu código deontologico a denuncia-lo às entidades competentes.

Pela primeira vez a Bastonária disse algo que me deixou “triste”.
Hoje sinto vergonha de ser enfermeiro. Para auto-alivio da consciência fica o facto de ter feito parte de uma alternativa a isto.

 Noticia a que me refiro aqui


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Coordenação Nacional da RNCCI

 

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Num passado recente fui candidato à Secção Regional Sul da Ordem dos Enfermeiros.
Também já o expus neste espaço que sou um defensor do reforço dos Cuidados de Saúde Primários e da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, pois através deste reforço teremos um melhor acesso a cuidados de saúde e uma melhor qualidade e eficiência nos cuidados prestados. É também sabido que o reforço destas áreas de atuação irá certamente a prazo resultar na consequente valorização dos cuidados de enfermagem, não fossem estas áreas de eleição da sua atuação.
Ainda irei escrever sobre a experiência de ser candidato e principalmente sobre o valor da democracia nas passadas eleições para a OE.
Hoje os motivos são outros, motivos que me deixam muito feliz…
O Coordenador Nacional da RNCCI é um Enfermeiro! Parabéns Enf. Manuel José Lopes!
Mas deixem-me realçar ainda mais um segundo motivo. É com muita honra que vejo dois dos candidatos da lista que liderei serem nomeados para a Equipa de Apoio do Coordenador Nacional da RNCCI.
Enf. Maria Graça Eliseu –Candidata a Presidente da MAR pela lista F
Enf. César Vicente da Fonseca – Candidato a Presidente do CFR pela lista F

Isto só fortalece a ideia que eu já tinha. Liderei uma excelente equipa!
Uma equipa que se poderia apresentar para um reforço e construção de um futuro ambicioso mas consistente e realista para a Enfermagem.
Parabéns aos escolhidos e votos de muitos sucessos.
Juntos Construímos a Enfermagem em que Acreditamos!

O Despacho n.º 201/2016 com as respetivas nomeações


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David, o sistema está podre por dentro!

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Durante os últimos dias tem sido de sobremaneira discutido o caso do David.
É triste, revoltante e inaceitável quando um jovem de 29 anos morre.
Pode (e deve) ser discutido o caso mas deve (e pode) ser feito um distanciamento e ser analisado o sistema que levou ao caso…

Porque é que a notícia surge?
Olhemos para as consequências:
– Mediáticas: demissão do presidente da ARS, presidente do CA do CHLC e CHLN
– Emocional: O David morreu!
– Oculta: Contratação imediata de médicos para prevenção ao fim de semana pagos ao “peso de ouro” exigido quando deixaram de o fazer

É indiscutível que os cortes na saúde dos últimos anos levaram à necessidade de “escolhas” que têm este tipo de consequências.
Mas é também indiscutível que o sistema está pervertido… é perverso no seu amago… e o regulador não só não consegue regular como não quer regular efetivamente. Os lóbis na saúde superam o essencial!

Podemos pensar quem publicitou a notícia mas certamente que quem ganhou foi o loby médico.
Não digo que não devemos lutar para que os profissionais de saúde ganhem mais ou melhor ou diria até o justo. Mas e a responsabilização associada ao valor?
E a Maria que morreu durante a noite com um Hematoma Epidural porque o Neurocirurgião de prevenção dormia e não “acordou a tempo”?
E o Júlio com a disseção da aorta que morreu porque o Cirurgião da Cardio-Toracica de prevenção em casa disse que “não era urgente”?
E o João com a hemorragia digestiva alta que morreu porque o Gastroenterologista de prevenção “assumiu” que só fazia a EDA de manhã?
E a Francisca com o pneumo-peritoneu que morreu porque o Neurorradiologista se “recusou” a vir fazer a TAC com contraste às 3h37 da manhã?
E a Graça que ficou com a face desfigurada porque o Cirurgião Plástico de prevenção “referiu” que a ferida complexa poderia ser suturada apenas a meio da manhã?

E já agora… e a Sofia que morreu porque ficou só um Enfermeiro para 20 pessoas em Portalegre porque o colega teve de vir trazer a Joana a Lisboa?
E o Francisco que morreu porque não havia prevenção de Enfermagem para transportes em Faro (porque não há dinheiro para prevenções na enfermagem)?

David, o sistema está podre por dentro!
Vamos continuar a ter David’s enquanto estes casos forem usados para defesa de lóbis e não verdadeira melhoria dos cuidados de saúde!
Vamos continuar a ter David’s enquanto o acesso à saúde se avaliar apenas por acesso a médico e medicamento!
Vamos continuar a ter David’s enquanto a responsabilidade não for assumida por todos – profissionais de saúde e decisores políticos!


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JDT – Escala de Dependência de Cuidados nos Serviços de Urgência

Quando iniciámos o trabalho nunca pensámos que pudesse ter o impacto que hoje teve.
O estudo pôs os Enfermeiros a falar da falta de recursos para acompanhar as reais necessidades dos cidadãos nos Serviços de Urgência e Cuidados de Saúde primários.
Jornais (Jornal i, Diário de Notícias, newsletters do Expresso e Observador), Radio (Comercial e Antena 1) e Televisão (TVI e TVI24) falaram sobre esta problemática.
É possivel fazer… construindo.
Sou candidato a presidir a SRSul, porque quero dar continuidade ao que temos vindo a fazer, porque quero dar voz aos enfermeiros de cuidados gerais e prestadores de cuidados, com base em factos e sem demagogias.
Hoje foi a prova que é possivel se a Enfermagem Acredita(r)!

Ficam as reportagens:

Artigo Diário de Notícias

Artigo Jornal i

Direto TVI 24

Peça Jornal da Uma TVI

Audio Antena 1


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Não se fazem omeletes sem ovos!

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Uma das notícias da semana na área saúde foi o projeto desenvolvido pela Gulbenkian para diminuir as taxas de infeção hospitalares.
O expresso noticia que entre 2010 e 2013 aumentaram 55% as mortes por estas infeções.
Não sei como os dados foram apurados e que tipo de pessoas morreram com estas infeções. Se a gravidade da doença levaria a que morressem na mesma, se a cirurgia complicou por varias razões e entre elas estava uma infeção nosocomial.
Não sei!

Mas sei que a falta de enfermeiros leva a mais infeções nosocomiais.
E não sou eu que o digo.
Dou aqui apenas alguns exemplos:
– Um estudo, desenvolvido em Genebra, verificou que o risco de infeção aumentou 50% em pessoas atendidas por equipas de enfermagem reduzidas (1)
– Outro estudo, desenvolvido em Genebra, verificou 30% de redução do risco de infeções hospitalares entre as pessoas que foram atendidas por equipas de enfermagem adequadas (2)
– Um 3º estudo, desenvolvido na Pensilvânia, mostra uma associação estatisticamente significativa entre as infeções do trato urinário e infeções do local cirúrgico com o número de doentes para enfermeiro. Mostra ainda uma associação entre estas infeções e o nível de burnout dos enfermeiros (3)

E certo também é que o número de enfermeiros diminuiu de 2010 para 2013.

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Como uma imagem vale mais que mil palavras o gráfico anterior mostra a evolução dos números.
Sei que não podemos fazer inferências diretas mas…
O que se observa é que ao mesmo tempo que o número de enfermeiros diminuiu as mortes por infeções associadas as cuidados de saúde aumentaram.

Sr. Ministro, não se fazer omeletes sem ovos e já agora aproveito para o alertar que as omeletes com ovos liofilizados (TAE, TOTE, TAS) não têm o mesmo sabor!

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Juntos Construímos a Saúde em que Acreditamos

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Há pouco tempo lançaram-me um desafio…Para ti como seria um possível processo de reforma do sistema de saúde português?
E aqui vai a partilha…

No atual contexto demográfico, social e económico é necessária uma mudança de paradigma de abordagem da saúde, com novas estratégias que se articulem com outras políticas e mobilizem a ideia de que o bem-estar do cidadão está diretamente ligado à prosperidade económica.
Hoje a população é mais idosa. Observa-se na população portuguesa uma baixa taxa de natalidade e fecundidade e houve um aumento da esperança média de vida.
A população acumula-se no litoral aumentando a população urbana e principalmente a periurbana dilatando a iniquidade entre litoral e interior e entre região urbana e periurbana.
Há uma desregulação no acesso à saúde que levou a houvesse portugueses com acesso a médicos e enfermeiros de família e outros não, o que, entre outras consequências, faz com que cerca de 40% das urgências hospitalares sejam problemas de cuidados saúde primários.
Observam-se problemas na verdadeira implementação de reformas conducentes do plano nacional de saúde. A implementação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) não dá resposta a todas as necessidades, é difícil o acompanhamento da doença crónica, não há monitorização da adesão ao regime terapêutico, a saúde escolar tem grandes lacunas e a saúde mental contínua no paradigma da institucionalização e com pouca intervenção comunitária.
No mercado da saúde há uma relação de agência imperfeita devido à assimetria de informação entre os consumidores e prestadores. O cidadão fica então em uma situação de fragilidade quando necessita de “consumir” cuidados.
No entanto, a liberalização do acesso e a indução da procura elevam o risco moral levando a que os serviços públicos ou com acordos, mais tarde ou mais cedo vão estar cheios, multiplicando o número de consultas, meios complementares e de diagnóstico, consumo de medicamentos e número de urgências e internamentos. Neste contexto, exige-se, ao estado, que assuma o controlo deste aumento do consumo e aumento de custos.
Olhando para o sistema de saúde existente, o maior consumo está nas estruturas hospitalares e na indústria que gravita em torno destes. Assim só controlamos este consumo se reduzirmos a procura hospitalar e isto só se consegue com várias medidas.
São necessárias várias medidas.
Melhoria e reforço dos cuidados primários. Deverá ser reforçada a aproximação ao cidadão transferindo recursos dos hospitais para os centros de saúde, garantindo um acesso facilitado e um melhor acompanhamento do cidadão. A aposta na educação na saúde e hábitos de vida saudável desde a idade escolar deverá ser também uma das prioridades.
A diminuição da permanência em meio hospitalar através do reforço da RNCCI. Deverão ser desenvolvidas ações de promoção de envelhecimento ativo, promoção de autonomia e promoção de descentralização e intervenção em proximidade com e na comunidade. O idoso deverá ficar cada vez mais em sua casa ao invés da institucionalização.
Tudo isto exige ainda uma verdadeira integração dos cuidados que promova a articulação aos diferentes níveis (primário, secundário e continuados) colocando o cidadão no centro do sistema. As Unidades Locais de Saúde são uma forma de executar esta integração, mas será necessária uma avaliação dos casos de implementação existentes, para avaliar se será o melhor ou se também aqui teremos de alterar a forma de realizar. Nesta ideia de integração e evolução é preciso ter em atenção o serviço social que deverá estar mais perto que longe da saúde.
Deverá ser feita uma aposta na formação em literacia na área da saúde, sustentando uma capacitação dos cidadãos e respetivos cuidadores dentro da gestão do seu bem-estar.
Ora, neste processo de evolução do sistema fica a faltar o “fecho” de hospitais que já deveria estar a acontecer. Com a transferência de cuidados para os CSP e RNCCI o hospital deverá ficar apenas restrito a cuidados complexos, garantindo nestas casuísticas uma prestação de qualidade. A concentração dos hospitais em centros hospitalares deveria ter iniciado esta convergência de cuidados com a agregação de atividades similares mas isso não se verificou. Esta centralização de serviços garantirá uma melhor alocação de recursos e consequentemente melhores resultados clínicos.
Tem faltado também ao longo dos últimos anos uma maior aproximação aos profissionais de saúde prestadores, ouvindo-os e integrando-os, fazendo com que estes sintam a reforma como deles também e capacitando-os assim para fazerem parte da transformação.
Esta transformação não se dá se o sector da saúde for visto de uma forma estanque e apenas no sistema de saúde. Por isto, deverá ser ainda promovida a implementação de iniciativas intersectoriais. Escolas, segurança social, autarquias, ambiente deverão desenvolver atividades que promovam a saúde aos vários níveis, envolvendo vários profissionais com proximidade aos cidadãos e agindo de forma a beneficiar todas as partes envolvidas.